“Quando digo a palavra guarda-chuva, vemos o
objecto na mente. Vemos uma espécie de bengala, com varas de metal que se dobram
e que formam uma armação para um tecido impermeável que, quando aberto, nos
protege da chuva. Este último pormenor é importante. O guarda-chuva não é apenas
uma coisa, é uma coisa que exerce uma função; por outras palavras, exprime a
vontade do homem. Quando paramos para pensar nisto, verificamos que todos os
objectos são semelhantes ao guarda-chuva, pois também servem uma função. Um
lápis serve para escrever, um sapato para o calçarmos, um automóvel para o
guiarmos. E o que eu pergunto agora é o seguinte: o que acontece quando uma
coisa deixa de cumprir a sua função? Ainda é a mesma coisa ou transformou-se
numa coisa diferente? Quando arrancamos o tecido de um guarda-chuva, o
guarda-chuva ainda é um guarda-chuva? Abrimos a armação, pomo-la sobre a cabeça
e saímos para a chuva e ficamos completamente encharcados. Será que ainda
podemos chamar guarda-chuva àquele objecto? De uma maneira geral, é isso o que
as pessoas fazem. Quando muito, dirão que o guarda-chuva está estragado. Mas
para mim isto é um erro grave, é a causa de todos os nossos problemas. Como já
não pode desempenhar a sua função, o guarda-chuva deixou de ser um guarda-chuva.
Pode parecer-se ainda com um guarda-chuva, pode ter sido um guarda-chuva, mas
agora transformou-se noutra coisa. No entanto a palavra empregue é a mesma. Por
conseguinte, já não consegue exprimir o que é o objecto. É imprecisa, é falsa,
esconde a coisa que deveria revelar. E se nem sequer conseguimos nomear um
objecto comum do dia-a-dia que temos nas mãos, como é que podemos esperar falar
das coisas que verdadeiramente nos preocupam?” Paul Auster

Sem comentários:
Enviar um comentário